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sexta-feira, 5 de março de 2010

ORAÇÃO DO MATUTO

Além de ser uma linda oração é também uma bela peça literária.



Texto: Fátima Irene Pinto
Interpretação:Silvio Matos

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

FALSA FOLIA


Foto: Max Haack (carnaval 2008)

Faz tempo que venho observando as mudanças do Carnaval.
Sempre piorando, priorizando os resultados econômicos em detrimento da espontaneidade da nossa gente, sempre criativa e ainda mais irreverente durante o reinado de Momo.
Pude fazer agora uma constatação: A folia ficou falsa.
A praça não é mais do povo. É dos camarotes e da televisão.
Os primeiros a ignorar a realidade. A segunda para filmar o inconsistente.
Prá ver a banda passar... nem pensar.
O culto ao mau gosto leva tudo e todos ao desespero, ao oportunismo barato, ralo e raso.
Como comparar a “Mudança do Garcia” com a atual ‘Andança do Garcia’?
Esta, um arremedo chulo, sem brilho, sem magia.
Um retrato fiel de que é possível sorrir de barriga vazia. Mesmo um sorriso falso, um sorriso de quem viu o sol nascer quadrado, um sorriso imperfeito.
O que tive oportunidade de ver na segunda-feira de Carnaval, é de causar náusea.
Meia dúzia, sei lá, de cavaleiros tão bem dispostos que pareciam abrir o funeral do Garcia, capitaneados por um oportunista político sem expressão, que seguia a pé, entre seguranças, como um pateta entre patéticos. Em seguida, tolos de camiseta branca e estampada com estrela vermelha, todos parecidos com produtos perfilados em prateleiras de mercadinho popular. Verdadeiros manequins, imobilizados pelas pontas das estrelas dispostas feito esporas.
Cadê a Mudança do Garcia?
Cadê o Povo? Que venha o Povo!
Prenderam os foliões por trás dos camarotes. Espremeram o povo até tirarem sua última gota de suor. O suor que vem do sal, do sal da vida, do brilho do sol na praça.
Batuque? Onde estão os batuqueiros? Confinados em timbaleiros? Engessados, lado a lado como em navios negreiros, num lamento frenético e sem voz?
A Praça não é mais do povo, nem o céu é do com dor.
A pena é paga aqui mesmo sobre chão. Rastejante insana a devorar alegria.
O povo está ficando mudo. Perplexo, ...”caminhando contra o vento sem lenço e sem documento”, como diz o poeta.
Perplexo, atesta sua inutilidade a serviço do ‘topa tudo por dinheiro’.
Precisamos transformar o Carnaval numa festa de baianos, sem opressão, sem vaidade política partidária, sem o gesso de manequim e sem a mesmice enfadonha.
Sem abadá e com muito mais Abará.
A Bahia é a terra da felicidade, das danças.
Precisamos de mudanças para acabar com as lambanças.
Viva a Mudança!!! A Mudança do Garcia não vai morrer.
Por certo as mudanças virão.
Falsidade! Vai dançar em outro terreiro! Xô!!!
E para deixar o Garcia sempre vivo, um alerta geral:
...”Chou, chuá, cada macaco no seu galho, o meu galho é na Bahia e o seu é em outro lugar”...


Jorge Marcos Britto
Salvador, quarta de cinzas de 2010.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Nossa Amizade By Luiz Britto | Dezembro 12, 2009 - 8:00 am - Posted in Crônicas

(MENINAS LENDO - PICASSO)

Gente que a gente conhece há muito tempo é como um bom sapato velho: é macio, o nosso pé já está acostumado com ele, não estranha. O sapato já faz parte da vida da gente, é um complemento agradável e bem aceito. Gente é a mesma coisa: os velhos amigos. Ficamos à vontade. Mesmo que não os vejamos há muito tempo, em minutos ou segundos volta a mesma amizade, a mesma intimidade, sentimo-nos bem, deslizamos numa conversa amável, sem arestas, e com plenitude de assuntos. Outro dia aconteceu assim com Widmer e com Dionísio — este não via há anos — quando os encontrei num casamento. E, mais recentemente, com Thomaz e Lalado.
São tipos bem distintos, quase estão nas pontas extremas do mesmo arco. Thomaz faz o seu cooper matinal quando pode, e assim eu o encontrei na Centenário: andando, sapato tipo Nyke nos pés, camisa nova, colorida, um ar preocupado. Ele tem muitos afazeres, aquela andança tem seus minutos contados. Dali vai para a Faculdade, para as aulas, na madrugada passada esteve corrigindo provas de alunos, e então tem pacientes esperando por ele no consultório, problemas da clínica ou do laboratório pra serem resolvidos. Isso fora as viagens, os congressos, encontros com outros médicos, textos que escreve, livros que lê, discos que faz com a mulher e por aí vai. Uma vida cheia.
Eu o conheço desde o ginásio, no Marista. Aluno aplicado, eterno primeiro de aula, muita honra e distinção, prêmios e mais prêmios. Na época era Presidente de um Grêmio Lítero-Desportivo que eu nem sabia que existia, só estou tomando conhecimento agora. A vida nos tem trazido por caminhos paralelos. Ora somos vizinhos, logo somos compadres (pois ele é o padrinho de minha filha), depois vira incentivador de minha pintura, e aí descobrimos que somos primos — e pelos dois lados. A irmã de minha bisavó casou-se e foi morar em Sergipe: é a bisavó dele. O lado Britto vem de um tronco comum: o de Irmã Dulce, que é Britto. Primos em 5º grau no primeiro caso e algo semelhante no segundo.
Conversamos sobre literatura, sobre doenças, filosofias de vida — ele empatando o meu exercício na bicicleta, eu as caminhadas dele. Surgem, na conversa, referências a Tchekhov, a Tolstoy, imito cachorros latindo, primeiro um cachorrinho magrela, depois um cachorrão, Thomaz aplaudindo as imitações, nas gozações de sempre. Está risonho, feliz e cordial. Esqueceu por um momento os estreptococos e outros cocos. Lembra o irmão Edu, recentemente falecido, com um câncer que se alastrou rápido e sem cura. E eu recordo a imagem que guardo de Edu, menino ainda, um frangote com seus 11 ou 12 anos. Vejo-o, por segundos, à minha frente…
Na oportunidade comento que temos tanta intimidade, a amizade é tão velha que a gente se sente bem e é bom conversar. Ele lamenta que eu não apareço no apartamento dele, oferece-me a casa na praia para uma temporada, “quando você quiser, basta avisar”. Uma conversa longa, que não acaba mais. Ele se despede com um vigoroso aperto de mão — no meu estilo, a mão no antebraço, como os antigos romanos — e vai embora. E lá vou eu atrás, porque me surgiu mais uma coisinha pra dizer… E reencentamos a mesma conversa, agora no outro passeio.
No dia seguinte me encontro com Lalado. Seis e meia da manhã, na esplanada do Forte, no Porto da Barra. Eu vinha de uma hora na bicicleta, na ciclovia da Centenário, fora espiar o mar. Aquele mar limpo, azul claro, espelhado e feliz do Porto. Botes e barcos de pesca ao embalo da brisa, depois do pequeno quebra-mar, imensos cargueiros ancorados lá longe, no meio da baía. Vira os pescadores conversando, desfraldando suas velas, pintando os mastros, e já ia voltando quando ouço me chamarem:
— Britto!
Lalado e Simone. Estavam guardando as bicicletas, amarrando-as num poste de luz. Simone sorri, comenta que fiquei bem com a cabeça meio grisalha. Deve haver algo poético nisso: o cinza, afinal, é algo bem mais sutil e rico do que o preto retinto. Até os meus cachos estão indo embora: o cabelo vai alisando, vai-se acomodando, vão-se embora as ondas no temporal, na tormenta, aparecem ondas lisas e mansas, talvez parecidas com esse mar azul claro que ora descortino. Um mar banhado de luz e paz.
Lalado é um companheiro velho. Antes de me conhecer, já era amigo de meu cunhado Oriovaldo. Anda de bicicleta, como eu, é vegetariano a vida toda, budista, contestador, rebelde e muito feliz. Faz o que quer e isso é a chave da mais perene felicidade. Quando converso com ele recebo uma injeção de otimismo, alegria, juventude, entusiasmo, espontaneidade, felicidade. Ele exagera tudo, tudo vai dar certo, tudo é ótimo e maravilhoso. E talvez seja. Simone vai andar e nós ficamos a conversar. Assunto é que não falta.
Lalado está com uma sandália velha, a camisa meio surrada, a bicicleta um tanto enferrujada. Diz ele que assim não desperta a cobiça de ninguém. Pode deixar a sandália e a camisa na praia que ninguém leva. Quem o vê assim, folgazão, sorridente, cabelos ainda escuros, a barbicha já com a ponta branca, não pode imaginar o seu preparo. Formado em Direito, curso de Administração, 6 anos em São Paulo, trabalhando na Price & Waterhouse, e depois dirigindo empresas na Bahia, trabalhando na Odebrecht. Largou tudo pra ser livre como um passarinho — e é. Não ter horário. Não ter patrão imediato. Poder ver as filhas crescerem, no espanto da infância.
Fez como Guimarães Rosa, foi ser burocrata, funcionário público, pra poder ter seu tempo livre. Na Odebrecht prometeram-lhe mundos e fundos, até um cargo de chefia em Paris…
— Não, eu respondi, prefiro ver as minhas filhas crescerem…
Poder ver as filhas crescerem, no espanto da infância. Poder ir para a praia, tomar sol, ver o por do sol no Farol da Barra, tanta coisa que ele queria fazer!
Essa conversa sobre a Odebrecht surgiu porque eu disse que se ele continuasse na Odebrecht seria um diretor, estaria ganhando mais de um milhão de dólares por mês, estaria na Europa — ele respondeu “é mesmo” e me contou essa parte de sua vida que eu nem conhecia.
Um laço firme de amizade me une com Simone e Lalado. Afinal, ele é a base de Lulu Cascatinha, personagem do meu primeiro livro, COCO DE BRASILEIRO — foi assim que foi detonado todo o meu processo criativo, literário. E ele sabe disso.
Volto pra casa e lhe mando um e-mail que termina com a seguinte frase, um statement, como dizem os americanos:
Amizade antes de tudo — tesouro que não tem preço e que está nas ruas e no coração dos amigos.

demais crônicas no arquivo Crônicas do site www.bahiapress.com.br

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

UM DURANGO NA DASLU - DENIS CAVALCANTI - PEQUENA BIOGRAFIA


Sempre tive vontade de conhecer essa tal de Daslu.
Já que estava em São Paulo , por que não ir? Ainda mais depois que me disseram que lá não existe nenhuma peça que custe menos de três dígitos, resolvi dar uma de São Tomé e ver para crer.
A entrada já foi um problema. O segurança perguntou pelo meu carro - ou motorista. Quem já foi sabe muito bem: na Daslu - acreditem - não se entra a pé, somente motorizado.
Fingi que não era comigo e entrei.
Fui recepcionado por uma loira escultural com sorriso de anúncio de dentifrício, uma sósia escrita e escarrada da Ana Hickman - com direito a 1m30 de pernas, chapinha no cabelo, olho azul e muito mais.

- 'Where are you from?'.

- 'Belém do Pará'.

- 'I beg your pardon!'

Tava na cara que eu não era paulistano. Mas daí a me confundir com gringo, já é demais. Eu lá tenho cara de estrangeiro! Como um cão sabujo, onde eu ia, ela ia atrás.
Dos milhares de itens que admirei boquiaberto, um em particular me encantou. Uma bolsa tiracolo Prada pra lá de maneira que imaginei que coubesse no meu orçamento.
Ressabiado, indaguei o preço.

- 'Nove, apenas nove. E o senhor pode dividir em três vezes no cartão'.

- 'Nove o quê?'

- 'Nove mil...'

- 'ARRE ÉGUA"!!!

A pequena ficou tão assustada com minha reação que cheguei a pensar que fosse chamar os seguranças. Mas não.
Acho que ela sacou que daquele mato não sairia cachorro, no máximo um carrapato.
Fechou a cara, deu meia-volta e sumiu.
Já que estava na chuva, resolvi me molhar.
Entrei num salão onde só tinha Armani. Como já estava enturmado, perguntei o preço de um 'vestidinho' de festa. Adivinhem? 100.000 pilas. Tu és doido! Uma estola de zibelina? 60.000 ..
Fico imaginando quantos bichinhos foram sacrificados para esquentar o lombo de uma madame.
Um blaser Ermenegildo Zegna (isso lá é nome de grife?), 13.000 .
Um óculos Gucci, 4.500.
Uma cuequinha básica do Valentino, 260. Com direito a ouvir essa pérola do vendedor:
- 'Leve logo meia dúzia, tá na promoção!'.Imaginem quanto ela custava antes.

Na adega climatizada não foi diferente. Um Romaneé-Conti, safra 2000 - aquele do Lula - estava por módicos 8.000 reais. Uma garrafa de Johnnie Walker Blue, envelhecida 80 anos - uma das raras existentes no planeta, 55.000.

Fiz as contas e verifiquei que no final saí no lucro.
'Charlei', vi gente famosa, coisas bonitas, tomei mineral Badoit, capuccino, Prosecco, champanheTaittinger, fartei-me de canapés, fois gras, blinis com caviar (não era Beluga). Sou duro, mas sei o que é bom. Até confit de canard tracei. De quebra, profiteroles e apetitosos bombons trufados.
As horas passaram voando. Minha acompanhante finalmente apareceu e perguntou:

- 'Vamos almoçar?'

- 'Almoço? Estou almoçado e jantado!'

Depois de conhecer quase tudo descobri que a Daslu é uma espécie de zoológico sem grades. Só que os bichos somos nós. Eu e você. Acabado, me esparramei num confortável sofá. Enquanto esperava o resto da turma chegar, abri um livro e relaxei. Mal virei a segunda página, dois novos ricos falando alto, com mais sacolas do que mãos, sentaram ao meu lado esnobando:

- 'Amanhã vamos para o nosso haras em Catanduva( São Paulo) O réveillon será no Guarujá'.

Me deu uma raiva... Peguei meu celular e resolvi mentir um pouco:

- 'Paulo, não encontrei nenhum 'Summer' para o réveillon. Abastece o jatinho.

Partimos amanhã cedo para Paris. Essa Daslu tá um lixo!'

A cara que os dois fizeram, não tem preço...

 
Gostou? Eu também, só que quando li, não conhecia o autor, mas como boa pesquisadora do Google que sou fui a caça de informações. Descobri que o autor é Denis Cavalcante (homônimo do artista plástico, mas não é ele, não se engane) Leiam este artigo, não é uma biografia, mas pelo menos dá para conhecer um pouco melhor o trabalho do Denis. Dá também para perceber que virei fã. Para mais crônicas de Denis Cavalcanti acessem O LIBERAL - DIGITAL

Quando os cronistas se encontram

Edição de 15/12/2008

Há 26, quase 27 anos, os leitores de O LIBERAL conhecem João Carlos Pereira. Denis Cavalcante também é velho - mas não tanto - conhecido dos leitores. João começou a escrever crônicas em 1982, num caderno que era a continuação do primeiro e que, na Redação, tinha o curioso nome de 'rabo'. Lá é que se publicavam as notícias de variedades, artes e espetáculos. Com o surgimento do Caderno 'Mulher', foi levado para o suplemento feminino. Quando surgiu um espaço só para cronistas, a coluna 'Bom Dia', mais uma vez mudou de lugar. Foi no 'Bom Dia' (inaugurado pelo João, a convite do redator-chefe, Walmir Botelho) que Denis Cavalcante e João Carlos Pereira encontraram-se, depois de percorrer caminhos paralelos no mesmo jornal. Quem lê o Denis, lê o João e vice-versa. A partir de agora, os dois mais antigos cronistas de O LIBERAL poderão ser lidos de uma vez só, sem que haja necessidade de se esperar pela sexta-feira, dia do Denis, ou pela segunda, do João. Eles estão juntos no livro 'Rio Memória', que será lançado hoje, a partir das 19 horas, na Assembléia Paraense da Presidente Vargas.

A experiência de fazer um livro a quatro mãos nasceu da amizade entre Denis e João. Eles se conheceram em 2002. A amizade não nasceu de uma vez. João Carlos Pereira e Denis Cavalcante foram, aos poucos, se encontrando. Eleito para a Academia Paraense de Letras, João viu o Denis começar a freqüentar a APL. Quando decidiu concorrer a uma vaga, no Silogeu, Denis tinha garantido, apenas, o voto do acadêmico Hilmo Moreira ('tudo é culpa do Hilmo', acusa). Nesse momento, João Carlos entrou na campanha e ajudou o novo amigo. Era outubro e, por um voto (um acadêmico esqueceu de mandar a cédula para os três escrutínios, certo de que o Denis se elegeria na primeira rodada e, ao enviar apenas uma voto, impediu a eleição do cronista) perdeu a eleição. Na noite em que foi proclamado o resultado, apenas Hilmo Moreira, eleitor da primeira hora, e João Carlos foram ao apartamento do quase-imortal para dizer que não desistisse. Tomaram uísque, conversaram e conseguiram dele compromisso de não desistir. Poucos meses depois, enfrentando outra campanha, foi eleito.


NA APL


Tanto Denis, quanto João, sabem que chegaram à APL a bordo das crônicas que publicaram em O LIBERAL. 'Tenho dito e escrito que minha vida mudou de rumo, depois que cheguei ao Jornal. Sem O LIBERAL e sem a Fundação Romulo Maiorana, onde trabalhei por muitos anos, pouco ou nada teria feito', agradece João. 'Meu caso é igual ao do João. Se o Walmir (Botelho - diretor-redator-chefe de O LIBERAL) não tivesse acreditado em mim, eu estaria no mais completo anonimato', diz Denis. As crônicas de 'Rio Memória' foram publicadas, inicialmente, em O LIBERAL e mostram Denis e João em sua melhor forma. 'Nós precisamos dizer muito obrigado também ao Altino Pinheiro, presidente da Imprensa Oficial, que muito tem ajudado a Academia e muito tem feito pelos autores paraenses. Nós temos uma dívida de gratidão para com ele', reconhecem os autores.

Denis Cavalcante é livreiro, jornalista (pertence, inclusive, à Academia Paraense de Jornalismo) e chef da cozinha do badalado restaurante 'Baú Bistrô'. No quarto ano do curso de medicina, resolveu que não queria ser médico e mergulhou no mundo dos livros. João Carlos é jornalista, pertence ao Conselho Estadual de Cultura do Pará e é professor universitário. O tempo não revela a dimensão da amizade que une os dois acadêmicos. 'O Denis sempre teve um amigo que fosse o contraponto dele. É agitado, irrequieto, fala alto e diz o que pensa, antes de pensar. O João é o inverso: é calmo, ponderado e só fala depois de muito pensar. O curioso que o Denis gosta de pessoas assim. O Luis Roberto Meira era como o João e os dois foram irmãos. O João, hoje, é o irmão que o Denis não teve', compara Rejane Cavalcante, esposa do Denis. 'O João e o Denis são água e vinho. Mas o João gosta muito do Denis. Gosta dele como um irmão. Quando o telefone dele toca antes de 8 horas, eu já sei: é o Denis. E isso é todo dia, todos os dias do ano. Quando o Denis não liga, ele liga', entrega Emília Farinha Pereira, esposa do João. 'São dois cronistas da melhor qualidade. Posso dizer que O LIBERAL está muito bem servido com eles. O João e o Denis seriam cronistas de primeira grandeza em qualquer lugar do Brasil. Para nossa sorte, eles estão em Belém', elogia o presidente da APL, acadêmico Édson Franco, que deu posse aos dois. 'Eles já preparam três belas antologias para a Academia. Este é, portanto, o quarto trabalho que fazem a quatro mãos’, acrescenta

Cronistas do cotidiano, Denis e João têm estilos bem diferentes, mas, no geral, tratam, essencialmente, do ser humano. 'O João diz que eu escrevo para fora e ele, para dentro. Pode ser. Não sei bem o que é isso, mas acho que ele tem razão'. 'O Denis é mais um contador de histórias. E isso ele faz como ninguém. Eu tenho outro jeito de fazer crônica. Vou mais pelos caminhos da alma. Mas cada um é cada um e assim como há crônicas do Denis que eu gostaria de ter assinado, há textos meus que ele garante que roubaria para dizer que eram dele. Na verdade, nós somos amigos fraternos e isso basta', finaliza João.

Belém, Quarta, 18/11/2009

segunda-feira, 18 de maio de 2009

LER DEVERIA SER PROIBIDO!!



A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular um curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura? É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova... Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos... A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

Autor:
Guiomar de Grammon

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