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segunda-feira, 27 de abril de 2009

RIFA-SE UM CORAÇÃO (QUASE NOVO)

(Clarice Lispector)




Rifa-se um coração quase novo.

Um coração idealista.

Um coração como poucos.

Um coração à moda antiga.

Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.

Rifa-se um coração que na realidade

está um pouco usado, meio calejado, muito machucado

e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.

Um pouco inconseqüente

que nunca desiste de acreditar nas pessoas.

Um leviano e precipitado,

coração que acha que Tim Maia estava certo

quando escreveu... "não quero dinheiro,

eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".

Um idealista...

Um verdadeiro sonhador...

Rifa-se um coração que nunca aprende.

Que não endurece,

e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,

sendo simples e natural.

Um coração insensato que comanda o racional

sendo louco o suficiente para se apaixonar.

Um furioso suicida que vive procurando relações

e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração que insiste

em cometer sempre os mesmos erros.

Esse coração que erra, briga, se expõe.

Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.

Sai do sério e, às vezes revê suas posições

arrependido de palavras e gestos.

Este coração tantas vezes incompreendido.

Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional que,

abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,

mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.

Um coração para ser alugado,

ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.

Um órgão abestado

indicado apenas para quem quer viver intensamente e,

contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida

matando o tempo, defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração tão inocente

que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.

Um coração que quando parar de bater

ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:

" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,

só errei quando coloquei sentimento.

Só fiz bobagens e me dei mal

quando ouvi este louco coração de criança

que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".

Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro

que tenha um pouco mais de juízo.

Um órgão mais fiel ao seu usuário.

Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.

Um coração que não seja tão inconseqüente.

Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,

mas que incomoda um bocado.

Um verdadeiro caçador de aventuras que,

ainda não foi adotado, provavelmente,

por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,

por não querer perder o estilo.

Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.

Um simples coração humano.

Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.

Um modelo cheio de defeitos que,

mesmo estando fora do mercado,

faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,

constrange o corpo que o domina.

Um velho coração que convence seu usuário

a publicar seus segredos e, a ter a petulância

de se aventurar como poeta.

sábado, 11 de abril de 2009

ÁSPIDE



Mulher de lábios castos e fatais
Por quem me apaixonei perdidamente!
Recordo a tua voz, doce e silente,
Assim como o sibilo das corais.

O teu sorriso claro e comovente
Me fez te desejar ainda mais
No instante em que — delírios sensuais —
Provei o teu veneno amargo e quente.

Naqueles dias prenhes de alegria
Te dei o meu amor e o meu respeito
E junto ao coração eu te acolhia.

Contudo certa noite em nosso leito
Num gesto de paixão e covardia
Cravaste as tuas presas no meu peito!

Por REBELLIS - REVELIA, arte, sangue e morte

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A VOCÊ, COM AMOR



O amor é o murmúrio da terra
quando as estrelas se apagam
e os ventos da aurora vagam
no nascimento do dia...
O ridente abandono,
a rútila alegria
dos lábios, da fonte
e da onda que arremete
do mar...

O amor é a memória
que o tempo não mata,
a canção bem-amada
feliz e absurda...

E a música inaudível...

O silêncio que treme
e parece ocupar
o coração que freme
quando a melodia
do canto de um pássaro
parece ficar...

O amor é Deus em plenitude
a infinita medida
das dádivas que vêm
com o sol e com a chuva
seja na montanha
seja na planura
a chuva que corre
e o tesouro armazenado
no fim do arco-íris.

(Vinícius de Moraes)

O PENSADOR

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Pandora sob o som de Adiemus



PANDORA

Escolhe o meu nome
Eu sou bruxa
Vivo na tua cabeça
Sou tua loucura
Sou tua paixão!
Me telefona...
E eu te engano
O meu amor é pura amargura
O meu amor é pura ilusão!

Me mostra teu desejo
Cravo minhas unhas negras na tua carne
E te como aos bocados demoradamente...

Enquanto ferves
Eu vou cortando o teu coração
Uma pitada de medo
Um pouco de sal e suor
Um pouco mais do teu sangue
Um pouco de dor
E eu vou mexendo com força
E enquanto mexo com força
Te sufoco de amor.

Nosalai RJ 04/04/1996

Dedicada ao amigo Ismael

domingo, 29 de março de 2009



Mundo grande (Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade


Nao, meu coração não é maior que o mundo.
Ê muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo.
Por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens.
as diferentes dores dos homens.
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que elo estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai’ inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos —— voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de invidíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar.
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! nós te criaremos

Fonte: http://www.passeiweb.com/

domingo, 22 de março de 2009

Conclusões de Aninha


Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

Cora Coralina

sábado, 21 de março de 2009

TEMPO DE MENINO



Ainda não falei do entardecer

Depois que o sol esconde

Atrás das dunas de areia

A lua aparece sobre o mar

Harmonizando o canto das sereias


Ainda não falei do tempo de menino

A criança tão feliz que eu era

Encantado olhava as borboletas

Bailando sobre as flores

Nas manhãs de primavera


Ainda não falei da mãezinha

Rosto sereno e sincero

O pai feliz dava risadas

Ensinou-me que essência do labor

A obrigação da tarefa terminada


Ainda não falei dos dias de hoje

Só falei dos dias de outrora

Saudade porque não voltam mais

Quando a natureza dadivosa sorria

Exuberante em seus mananciais


Ainda não falei do tempo de menino

A criança tão feliz que eu era

Encantado olhava as borboletas

Bailando sobre as flores

Nas manhãs de primavera



Letra e musica do poeta

Moacir Cardoso da Silveira o Cancioneiro da Lua

Maringá, Paraná, Brasil. 28 de novembro de 2008.

sexta-feira, 20 de março de 2009

NOSALAI - POETISA


Me encantei por ela. Seus poemas são rasgos, que deixam entrever nos versos, pedaços de sua alma.

ÚLTIMA CANÇÃO

Eu não tinha essa angústia
Estampada no rosto
Nem o desespero mudo
Em minhas risadas

Não tinha esses espinhos agudos
Perfurando-me os olhos
Não tinha essa vontade de morrer
Nem a tristeza do amor impossível

Não tinha a marca nem o rastro
Do tempo soltos em minha estrada
Não esperava calma outra fisgada
Me romper o peito despertando saudade
Não chorava á toa nas manhãs sofridas
Pelas horas de solidão

Não queria ter sentido
Não podia ter ouvido
Essa última canção.

Nosalai RJ 1982
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